VELHO PEREGRINO DAS VÁRZEAS DO RIO SOLIMÕES E SEU DELÍRIO

Um devoto antigo de São Francisco lembrava das trilhas de cactos e mandacarus de sua terra natal. Aqui e acolá, uma ossada de boi, igual àquelas que aparecem no filme (obra literária primordial) "Vidas Secas", de Graciliano Ramos.
Na várzea seca do Rio Amazonas, por onde peregrinava para buscar água de cacimba, via carcaças de boto e costelas de piraíba. Nada igual, porque sabia que, logo mais, a enchente chegaria para encurtar as distâncias e sua peregrinação para buscar água, matar a sede e cozinhar o feijão de praia.
Numa dessas andanças, descobriu, na volta do rio, uma praia nova na qual um navio de médio porte estava encalhado, tombado na areia e escorado com toras de madeira.
O peregrino vai até navio, sobe no convés com dificuldade e vai descobrir coisas curiosas. E me foi contando que encontrou um baú com uma garrafa de vinho. Destampou e bebeu. A partir desse momento começou a delirar de febre e a ter visões. E assim ele foi contando-me:

O rio voltou a encher e ele navegava dentro. O navio entrou num furo e chegou a um lago. Encontrou dois patinhos voando no céu e desaparecendo na nuvem escura que prenunciava chuva. Olhou para o outro lado e viu uma faixa azul que cruzava o sol e o separava em duas partes. Na faixa, lia-se "Nova Criação".

O peregrino ficou sem entender. Assim me contou, ao acordar daquela embriaguez diferente. A partir desse momento, ele foi me perguntando o que acontecera e o significado daquele visão sonhada supreendente.
Aí, começamos a fazer adivinhações e a trocar ideias. Os dois patinhos fugiram e entraram na nuvem carregada de escuridão. A faixa que cruzava o sol aliviava o calor e as folhagens se mexiam ao vento que soprava.
O nosso peregrino das beiradas do rio volta a caminhar, a pular por cima das galhadas que o rio deixara, no seu percursos para o mar. Havia trunqueiras deixadas pela correnteza que serviam de madeira para assar um peixe, chamar mosquitos, enquanto se via a dança das borboletas amarelas ao som das gaivotas.
Ao voltar para a casa, passou por debaixo da sua samaumeira de estimação, em forma de cruz, que despertava os navegantes para uma oração de agradecimento pelo novo tempo da Criação, tal como na faixa se anunciava uma Nova Criação.

Meu velho andarilho das beiradas, ao passar por debaixo da samaumeira, sempre imaginava que aqueles galhos gigantes, em forma de cruz, seriam os braços de Deus Pai a abarcar a todos com carinho e a não parar de reconstruir a Criação do Mundo, com um novo jeito de conviver em harmonia, longe das guerras, do domínio de um país contra o outro.
Nelson Peixoto, Manaus, 31 de Outubro de 2026



Comentários