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OS ESPINHOS NAS DECISÕES DA ELEIÇÃO 2026, ROSAS E LUZES DA IGREJA DE N. SRA. DO ROSARIO

há 14 horas
4 min de leitura

As rosas e os cactos me feriram e as eleições magoaram-me desde cedo, mas sempre falaram com carinho, antes de perfumarem ou de exalarem um fétido ou um esperançoso odor por mais quatro anos. As rosas desbrochavam, mas não iluminavam. Quanto mais sol pegassem, mais floresciam gratuitamente.


As sombras do que pode vir nos assustam se ocorrer um retorno à barbárie, apesar do discurso contra a corrupção, o combate ao comunismo ateu, com promessas de um Estado Teocrático, em substituição de um Estado Laico.


No meu tempo de criança, apesar do perfume das rosas e das luzes, as sombras da divisão confrontavam-se com a espada - General Lott X Jânio Quadros (Vassoura).


Concheci também luzes coloridas nos frisos dos altares da Igreja de N.S. do Rosário, em Itacoatiara, AM. Eram chamas, dentro de copos pequenos de vidro, igual a rosas dançantes no vento. Essas, porém, iluminavam e não me feriam.


A festa do Rosário era a mais falante do mundo e mais cativante para todas as crianças, que ficavam fissuradas com aqueles "vagalumes inteligentes". Imaginava e me perguntava: será que tinham subido as paredes e pousado, lá nos altos, para acenar aos devotos e curiosos, durante o novenário da Mãe do Rosário? Elas se transformariam em estrelas de esperança de um país reconciliado?


A proximidade daquelas luzes, de tanto olhar, quase entravam nos olhos das crianças. Eram para nós vagalumes, vibrando de calor, coloridas línguas de fogo, dando sinal para não ficarmos quietos e conformados.


Mesmo assim, esperávamos que viessem pousar nas nossas cabeças, iluminar nossas decisões, tal como o relato da vinda do Espírito Santo, a fim de afastar os medos e acertar em quem votar, em vista do bem comum e daqueles que ainda vivem de forma sub-humana.



Tudo era muito real, ao redor e dentro da consciência das crianças do meu tempo.  Muita pobreza e abandono, cegueira e caridade, mas sem justiça da parte dos conservadores e ricos da cidade e dos pobres comprados com farelos da "caridade". Não havia "bolsa-família" para aquecer a economia local, nem "pé-de-meia", apenas bolas de meias velhas para jogar uma pelada.


Meu tio era o padre e minhas tias eram devotas conservadoras que apoiavam o General Lott. Elas me levavam, a tiracolo, para rezar diante das luzes da igreja. Quando podia, eu ia aos comícios da esquerda daquele tempo que marcou minha fome e sede de justiça.


No fim das noites, a Benção do Santíssimo com o "Boa noite, Meu Jesus" me fazia cochilar ternamente nos braços de Nossa Senhora do Rosário. Mas nem todas as noites eram assim. Acreditávamos que o Menino Jesus podia descer dos braços da Mãe e vir brincar conosco e abrir a consciência para lutar em favor do bem de todos e não da manutenção e concentração de renda.


Brincávamos ao redor da Igreja, corríamos loucamente, entrando e saindo pelas portas, aguardando o fim da novena para chegar a hora do arraial. Cada coisa, naquele jardim de oração, parecia um canteiro de rosas sem fim. Era tempo do Rosário, da alegria e da correria.


Minha imaginação flutuava entre o céu e terra, à luz das velas e à luz do sol do dia seguinte. Não havia lâmpadas LED, nem pisca-pisca dos natais na cidade grande. A criatividade dos decoradores da igreja era singelamente linda.



Copinhos de vidro, papel celofane revestindo-os, metade de água e, por cima, uns dedos de óleo de cozinha, onde flutuava uma rodinha de cortiça, tendo um fio de algodão que seria o pavio para tremular, apressando o sonho da justiça praticada por Jesus.


Voltavámos para casa, no escuro. À frente, o rio caudaloso, uma e outra luz, ao longe, sinalizava que havia gente enfrentando as corredeiras e o famoso remanso do rio perigoso. Não havia cachoeira, mas havia uma lágrima dos olhos de um velinho saudoso, que se lembrava de tudo, como era no seu tempo.


O sonho, que ele me contou, contrastava os dois tempos de sua história de vida. Ele foi meu companheiro de andar de bicicleta e de fazer piruetas nas ruas. Contou-me os sonhos que, sinceramente , não sei se foi somente dele ou de todas as crianças daquele tempo.


"A Comunidade do Rosário fazia uma festa, no templo e fora dele. Não se repetiam mais as luzes, no alto dos altares, mas havia lâmpadas fortes que cegavam quem olhasse para elas. Não me conformei de ficar ali parado e de olho fehado. Saí e fui à beira do barranco, alimentar minha fé. Lá, vi outra decoração da festa, feita de cuias cortadas ao meio que navegavam no rio e rodavam no rebojo, conduzindo uma chama dentro dela, mas sem se apagar com o vento rasteiro do rio. Depois de algum tempo, testemunhei a fuga das cuias iluminadas, indo cada uma numa direção diferente".


Pensei na Igreja de Jesus que acontece também fora dos templos e em tempo de eleições. Chama que anda pelas casas, cria comunidades e convida mais pessoas para acender a fogueira da fé e da esperança. Também pensei na vida que rodopia para todos nós. Dos pés à cabeça, somos andantes desta vida, descobrindo no caminho as voltas e as revoltas que precisamos fazer para acertar o rumo. Clarões que chegam, relâmpagos que passam e o barulho que estronda em noites escuras no rio da vida que não para de correr.



Hoje, em busca da reconciliação, depois de anos a experimentar idas e vindas, paradas e estações, somos chamados para decidir se preferimos relâmpagos incendiários, a tênue luz de um vagalume ou sermos guiados pela estrela do Natal.


Voltamos a pensar como crianças as coisas sábias de nossa fé, com a singeleza das chamas penduradas nos altares. Sem precisar de muita argumentação ou de raciocínios teológicos para justificar nossa fé, vamos ficando agradecidos com as revelações do Coração da Mãe de Jesus:


"Demonstrou o poder de seu braço, dispersou os orgulhosos.

- Derrubou os poderosos de seus tronos e os humildes exaltou. 

- De bens saciou os famintos e despediu, sem nada, os ricos."


Rosas no começo da vida, com luzes pequenas sempre brilhando, brincadeiras na infância e semeadura alegre e confiante da ESPERANÇA de vermos, ainda, em algum dia, o rosto de Deus e abraço de Jesus em todas as coisas criadas e nas decisões da humanidade por um mundo de PAZ.


Nelson Peixoto, Manaus, 25 de outubro de 2026.

 
 
 

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