O VELHO JARDINEIRO SOFRIA COM CASTANHEIRAS FERIDAS DE MORTE

O atual octogenário cidadão, que gostava de flores quando era criança, chegou em Manaus aos 49 anos. Olhou-me e começou a me contar de seus anos trabalhando na coleta de castanha. Depois de um tempo, nos seringais, logo que chegou do Ceará Primeiro, foi para os altos rios do Amazonas e mais tarde, pegando um barco do Pará, foi para as terras paraenses, pegando rodovias e sonhando com o garimpo.
Uma empresa madeireira comprara uma grande extensão de terra para extrair madeira e implantar sua fábrica de laminados de madeira, conhecidos como compensados. Situou-se, não longe da cidade e muito perto de um rio grande que recebia águas de igarapés.
As castanheiras (bertholletia excelsa) tinham deixado de dar seus frutos com abundância; uma justificativa mentirosa, para viabilizar a execução das casas, dos operários da fábrica, que seriam implantadas.
Ao contar sua história, antecipei-me em pensar que o local seria meio parecido com o bairro da Compensa, em Manaus, que antes, era um grande sítio da família Borel, ocupado por moradores da cidade flutuante do Rio Negro, em frente da cidade. Pois, foram erguer barracos para viver e conseguir um emprego na madeireira. Não era nada disso e nem por Manaus que correu boa parte de sua vida. Tratava-se de uma outra cidade, embora, meu amigo agora morasse no bairro da Compensa. Algumas semelhanças vinham à sua mente, lembrando, com pesar, das altas castanheiras nativas, tombadas para a construção da vila, em terras do Pará.
Ele me contava que já tinha observado que as castanheiras, quando feridas, ainda em pé. Dizia-me que "choravam" ao ferimento dos facões. A alma poética do amigo identificava o lacre como o sangue que escorria da casca, e se transformava em cicatrização, depois de algum tempo.

Estudando sobre as castanheiras, descobrimos que o sangramento da casca tratava-se de uma defesa natural da castanheira. Ao ser ferida por um machado, o líquido (lacre) escorre para vedar o corte, protegendo o tronco contra o ataque de fungos, brocas e bactérias que poderiam adoecê-la.
Mas, era fato consumado a derrubada das castanheiras, que no chão já tinham secado suas lágrimas. Ele declarava que jamais ferira uma castanheira, pois suas lágrimas o convenciam que ela sofria, em sua falta de defesa, quando inerte, jogada ao chão e decepada em toras que seguiam para as serrarias, através da corredeira do igarapés.

O consolo, dizia-me ele: "algumas toras eram transformadas em tábuas de barraco dos novos moradores que chegavam na vila empoeirada." Lembrava com tristeza das toras que nunca se tornaram tábuas, mas se tornaram canteiros de flores silvestres, quando apodreciam, justamente sobre o húmus das madeiras em decomposição. Então, começava a vez dele regar o húmus´com as próprias lágrimas as pequenas mudas de orquídeas que, no alto nascerem e forem fiéis à vida, não morrendo ao serem jogadas no chão da floresta.
Eram orquídeas frágeis que recebiam o carinho de um jardineiro aprendiz do amor sofrido, jamais desprezando os feridos e cuidando de toda a forma de vida. Assim, pensando, tornou-se um companheiro de todos os idosos de sua rua, participante de um grupo da Igreja Batista que professava que a Glória de Deus acontecia quando cada ser vivente desfrutasse de seus direitos de viver e amar.
Nelson Peixoto, 17 de outubro de 2026



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