VELHO CHICO NO CALCANHAR DA ANTA - HISTÓRIA DE UM PAI HERÓI

Revisado. A floresta sempre foi cheia de mistérios, encantos e situações inéditas. Milagre das folhas gigantes e dos gritos noturnos que davam o tom de fascínio, curiosidade e boas histórias. Vamos contar uma delas, mirabolante e verdadeira, sem exageros e com o realismo da fala do VELHO RUBINA, fato acontecido no tempo em que servia como “soldado da borracha”, no rio Juruá, AM.
Sentado na rede, com o filho na frente, em cima de um banquinho, vai contar essa história. Com os olhos fitos no pai, o filho amado imaginava a última luta do cachorro magro com a onça ou o penúltimo abraço do tamanduá no pescador dos rios. Mas era outra a história.
Conta-nos o filho saudoso do pai. Como todo cearense de raiz, anda com uma faca na cintura, com apenas um risco, quando, em movimento brusco, pode dar um golpe certeiro no seu "caniço". Então, num dia quente, na floresta, aproveitou a hora do sangramento das madeiras de seringa, sabendo que podia encontrar qualquer fera. Pegou sua estrada e seus companheiros dispersaram, levando suas espingardas, enquanto o Chico ia apenas com sua faca amolada, passando pelas flores da floresta.

Aconteceu que, lá pelas tantas, deparou-se com uma anta (tapir) bonita que apareceu na vista do magrela e sem barriga, ou seja, do velho Chico. Somente com a faca na cintura, começou a espiar o animal com o desejo de caçá-lo, mas parecia impossível apenas com a faca. Para sua surpresa, uma onça pintada gigante, que tomava água no “chupador”, um barreiro onde outros bichos bebem água, já estava de olho na anta também. E agora? Para a sorte do Chico, o vento não levava para o faro da onça o cheiro da carne humana, apenas o da anta. As duas “onças", uma gente e outra a pintada, estavam olhando para a anta a fim de pegá-la.
De repente, a anta vê a onça vindo na sua direção para atacá-la. O Chico segue entre as árvores e cipós da estrada. A anta entra nas raízes da buritirana, árvore com raízes de pernas altas, cheias de espinhos duros e pontiagudos.
A anta entra e consegue passar, ferindo-se e deixando a metade do couro. No pega-pega, a onça segue e entra na buritirana e fica presa nos espinhos, sem poder voltar. Nessa nova situação, o perseguidor da anta passa ser o Chico da Rubina, correndo atrás, com sua faca na mão. A anta dá meia volta e vem à direção dele, que se afasta e se põe ao lado. Num dos pulos da anta sobre os paus caídos, consegue cortar o tendão do calcanhar do animal que rebola e cai. O Chico pula em cima e com a faca “ajumenta” a jugular do animal.
Nesse momento, lembra da onça que podia escapar da buritirana, vir atrás da anta e encontrar um prato mais gostoso, que era o velho magrela Chico. Como a barulheira chama atenção dos companheiros que estavam armados com as espingardas, esses chegam correndo e matam a onça.
Grande admiração para o herói matador da anta que acabava de abatê-la, quando foi perseguida pela onça. E aí, como foi que você enfrentou e matou a anta? O Chico da Rubina contou toda a história e foi aclamado como o maior caçador do seringal. Correu atrás da anta a acertou o calcanhar e "queda"!
O filho acreditou que seu pai herói matou a anta, sendo este um dos muitos atos grandiosos de seu pai, um mestre de histórias e saudoso amigo cearense.

Triste final para a onça pintada e a anta parda. A onça nem pôde abraçar o cachorro magro e nem o magrela do Rubina. Foi apenas um fato heróico que desconfiamos ser verdade. Por falar em verdade, a clássica definição, segundo o filósofo Kant, é a concordância do nosso conhecimento com o assunto que se conta. No entanto, ele argumenta que só podemos conhecer as coisas através da nossa percepção, ou seja, pela experiência.

Quem pode dizer se o Rubina está mentindo? Para tirar esta dúvida, recomendo o livro de minha autoria: A casa viva memória e histórias de um Menino. / Nelson José de Castro Peixoto. – 1ª ed. – Goiânia : Editora Alta Performance, 2023.
Obs. Histórias do livro em construção: "O Cachorro Magro e seu último abraço na Onça Pintada"
Este novo livro será de educação ambiental para desenvolver cuidado com os animais da floresta.
Nelson Peixoto, Manaus, 24 de Outubro de 2026.



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