TEIMOSO, SÁBIO E IDOSO QUE NÃO FOI MEMBRO OFICIAL DAS IGREJAS
- peixotonelson
- 15 de jan.
- 3 min de leitura
Atualizado: 16 de jan.

Havia lucidez nas palavras que eu ouvia de um certo homem idoso, quase sempre silencioso e afastado dos outros amigos, vivendo na casa acolhedora que o tinha residente, em uma situação dolorosa, questionadora e quase herética.
Era uma manhã de domingo, quando ele percebeu que uma senhora havia chegado de uma missa na Igreja mais próxima. Passou por ele, sem percebê-lo, pois estava ali como um velho pensador, em devaneios de fé, a olhar a devota das igrejas, obediente e cega diante das ordens meramente humanas.
Como eu o conhecia de outras conversas, diria, mais corretamente, que o velho acreditava no amor de Jesus, mas com diferentes práticas e formas, pouco "religiosas" da maioria dos católicos e evangélicos que conhecera, ao longo de sua vida. Para ele, sábio e idoso, o decisivo era o seguimento do jeito humano de Jesus. Ele sempre se viu como um filho querido de Deus, que não O via como um patrão, dono do mundo, de prontidão para castigar os pecadores e premiar os praticantes das obrigações das religiões. Ele tinha aprendido que Jesus foi o primeiro que viveu uma sã experiência de Deus, sem projetar sobre Ele, os medos e as ambições de sucesso, revelando-nos a verdadeira humanidade.

"Nem sempre levamos a sério essa experiência humana de Jesus. Mas, os primeiros cristãos tomaram muito a sério a humanidade de Jesus", que não foi um extraterrestre de natureza divina que estava dispensado da trajetória que todo e qualquer ser humano precisa percorrer para alcançar sua plenitude. (Pe.Adroaldo Palaoro)
Ele me falou sobre seu tempo de silêncio e dos eventos de sua infância. Vivia longe das igrejas, dos padres e dos pastores.
Com o passar do tempo, depois de chegar à cidade, dizia ter saudade dos anos em que passara o dia de Natal, à beira do rio, dizendo que o nascimento de Jesus, e era para se viver todos todos os dias. Estranhava porque, na cidade, o tempo de Natal acabava depressa, como uma data e não como um fato feliz e continuado, por saber que Ele veio para ficar no mundo.
Como nenhum outro homem idoso, eu o ouvi falar do nascimento pobre, fugitivo e oculto de Jesus. Ele disse que Deus era como Jesus foi e se mostrou, de carne e osso, um bebê chorão, que precisava de muitos paninhos para não sentir frio. "Daquele menino, veio um calor que acedeu até uma estrela-guia de gente de todos os cantos da terra". Falava dos pastores, iguais aos seringueiros perdidos, como gente esquecida por todos, apenas lembrada e amada por Deus, nas lonjuras do mundo.
Declarava que Jesus era totalmente humano como ele, que nascera no seringal do alto Rio Coari Grande, AM, alimentado com bananas e leite de amapá, com unção de andiroba nas juntas das pernas e um gorro de palha de tucumã na cabeça, com a benção da chuva fina que caia, no inverno amazônico. Nesse momento, lembrei-me do Profeta Isaías 45,8:

"Chova, ó céus, lá de cima, e as nuvens chovam a justiça; abra-se a terra, e produza a salvação, e juntamente com ela brote a justiça; eu, o Senhor, a criei."
Para este velho teólogo dos rios, a Encarnação de Deus, em Jesus, não cabia dentro de tempos que são medidos em dias, em coisas santas e templos, em quantidade de promessas ou em méritos de salvação, nem na base do cumprimento das leis e das normas detalhadas das Igrejas cristãs.
"Para meu povo de fé, o mais importante é estar confiante no amor ilimitado de Deus que veio viver entre nós, pousar suas asas de águia, abarcando a todos e nunca nos perdendo de vista. Cabe a nós aceitar seu amor e devolver este mesmo amor como Ele mesmo fez aos deserdados da terra, aos pobres, famintos, aos idosos abandonados, migrantes e forasteiros, moradores de rua e crianças sem família".

Diante deste pronunciamento, fiquei perplexo e perguntei-lhe onde aprendera sobre este estilo de viver a fé com liberdade e com compromisso social de melhorar o mundo e de crer, para além das instituições das Igrejas. Ele, sem vacilar, foi me contando de sua experiência, em Roraima, quando participou de um grupo de gente que aprendeu a ler a Bíblia, a partir da vida, que se chamava CEBI (Centro de Estudos Bíblicos).
O CEBI é uma escola bíblica que capacita pessoas a ler e interpretar a Bíblia a partir da realidade e em defesa da vida, da liberdade e paixão, com uma abordagem popular e orante que conecta a fé com a vida, a luta social e a espiritualidade.
Sugiro que os leitores conheçam o CEBI, abrindo o portal https://cebi.org.br

Afinal, meu velho amigo encontrou um jeito de viver, movido pelo AMOR, que aconteceu para sempre com a Encarnação de Jesus, em um NATAL, que não passa.
Nelson Peixoto, Manaus, 17 de Janeiro de 2026.











Comentários