IDOSO GANHA MAIOR LIBERDADE -ENTREVISTA DO PERCURSO FELIZ COM CRIANÇAS PARA NOVO AMOR
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Em um dia destes, eu aposentado ou "jubilado", como se diz em espanhol, fui convidado a dar uma entrevista, considerando que doadores podem querer deixar como herança, um legado ou até mesmo, um bem imóvel, para ter uma viva memória, após a morte. Neste dia, 21 de fevereiro de 2026, a completar 75 anos, reproduzo esta entrevista para agradecer a Deus por todos esses anos e a todos aqueles que passaram em minha vida.
O que você está fazendo como aposentado?
Respondo:
Escrevendo num blog pessoal e coparticipando do cuidado de uma neta, quando vem me visitar. Sinto que devo me cuidar para vê-la crescer, como aconteceu com tantas crianças que defendi, protegi e promovi seus direitos, durante 26 anos de gestão nas Aldeias infantis SOS Brasil.
O tempo passou, mas posso, mesmo depois que morrer, prosseguir fazendo o bem que continuará se multiplicando. É o que deixo da minha herança, uma vez que não possuo riquezas materiais. É verdade que esta é uma das formas de estar vivo e ajudar crianças a serem felizes e os idosos, a serem cuidados. Nesse caso, é ter deixado algum legado para as Aldeias Infantis SOS Brasil ou para alguma organização que cuida de idosos empobrecidos com carências materiais e afetivas.
Conte um pouco sobre sua trajetória na Aldeias Infantis SOS.
Minha trajetória está documentada em um livro, em 10 pegadas 12 luzes, no percurso dos 26 anos de Gestão das Aldeias Infantis SOS Brasil, em um conjunto de anos e de andanças, em Manaus, Brasília e depois, em Manaus de novo, onde me aposentei. Mais ou menos por 13 anos, em cada lugar. (PEGADAS E LUZES DA CAMINHADA - Experiências de Gestão nas Aldeias Infantis SOS Brasil, Goiânia, Editora Alta Performance, 2022)

Primeiramente, iniciei nas Aldeias SOS, no ano de 1994, em Manaus, AM, desde suas raízes. Depois em Brasília, ano 2000, que era uma Aldeia Infantil iniciada em 1972. Enfim, em 2013 até 2020, quando voltei para Manaus, a fim de efetivar um novo direcionamento, conforme as novas regras de cuidado infanto-juvenil e as famílias.
Qual a importância desse trabalho na sua vida? Qual foi o maior aprendizado enquanto atuava na Organização?
Importância do trabalho para a minha vida foi o SENTIDO MAIOR QUE DEI PARA ELA:
Dar continuidade a uma vocação de solidariedade que se firmou na luta pelos direitos das crianças.
Os aprendizados são muitos, entre os quais, destaco um que significou para muita gente que contribuiu com a Causa da Infância e tornou possível minha dedicação e das Equipes com as quais trabalhei.
O Maior aprendizado posso resumir assim. É o seguinte:
- A minha capacidade de mudar a prática, rever os conceitos e ter novas posturas ao longo dos anos, devidos às novas leis jurídicas que regeram os Direitos da Infância e da Juventude. Pois, nada é tão dogmático que não possa mudar. Eu mudei e muito. Explico:

Iniciei minha trajetória nas Aldeias para viver a PATERNIDADE SOCIAL. Nem sei se "dar para compreender", quando falamos de laços não consanguíneos, fora de nossas famílias. A mudança se deu quando essa Paternidade se ampliou e virou mais FRATERNIDADE E AMIZADE SOCIAL com os familiares das crianças. Antes, sentia-me mais pai social ou substituto.
Com o tempo, e mais estudos, deixei de ser pai para me tornar mais irmão dos familiares. Entenderam? Para as crianças tornei-me mais um “tio presente e educador para a vida”. Isso por que, segundo alguns, diziam que eu poderia estar roubando a paternidade biológica dos pais das crianças.
Foi quando decidi ter uma postura de GESTOR, sem perder a ternura, mas junto aos programas das Aldeias SOS e seus novos projetos, com seus cuidadores e técnicos, mas também, em parceria com as famílias, tanto quanto possível. Entretanto, para as crianças inadotáveis, feridas pela pobreza, além de ser gestor, precisava viver a paternidade social e encontrar pessoas para apoiar, tornando possível, através de doações e parcerias.
Outro aprendizado: Descobri que, mesmo sendo possesivo e egoísta, como qualquer ser humano, pude entender suficientemente que, de forma inteligente, poderia dar vida longa ou até eternidade para os gestos de solidariedade, enquanto vivermos. O mesmo podemos dizer sobre aqueles que contribuíram para o sustento, os estudos, a manutenção das crianças e técnicos, das casas e dos espaços com flores e animais de estimação.
Qual o impacto do trabalho da Aldeias Infantis SOS que você pôde observar nas crianças e famílias que foram beneficiadas?

Quem passou muito tempo e viu as crianças crescerem, como eu, posso conferir impactos de toda ordem ou resultados. Famílias que venceram a pobreza, ao ponto de filhos voltarem para casa e com o direito de vida familiar e comunitária reconquistados, que é a grande missão das Aldeias SOS e do fundador Hermann Gmeiner.
Tem mais. Resumindo, poderia dizer assim, o trabalho das Aldeias, através de tudo que envolveu a criança em termos de cuidado, proteção e desenvolvimento, foi o responsável por um novo roteiro de vida de algumas delas, desde quando foram acolhidas em uma casa lar. Vejam que, se não houvesse o trabalho afetivo e efetivo das Aldeias, não sabemos se alguns hoje estariam vivendo como cidadãos ou se tinham entrado no terror das drogas e sendo vítimas da violência ou da vida miserável dos presídios, se não tivessem sido mortas.
Você, ainda, faz ações sociais ou trabalhos voluntários após sua aposentadoria? Minha inquietude continua, mas de forma não institucional, pois me permite maior liberdade. Caminho muito e faço amizade através de minha presença no meio de pessoas pobres e que moram à beira dos rios. Procuro idosos para ouvir suas histórias de vida e escrevê-las, publicar, com respeito à privacidade de cada um, mas com intenção de escrever meu próximo livro para sensibilizar as pessoas a dar atenção aos seus familiares idosos e de não abandonar nos abrigos. Hoje me vejo como ativista dos direitos dos idosos.

Qual a importância de se manter sempre ativo e ajudar o próximo, especialmente após os 70 anos?
Em termos de fé, tenho uma razão muito forte de me manter ativo. Creio que a real forma de me encontrar com Jesus, é vê-Lo nas pessoas que passam por mim, sobretudo os necessitados que vivem sem seus direitos humanos. Gastar meus dias, por essa razão, é o melhor e o maior legado que posso deixar no mundo.
Nelson Peixoto, Manaus, 21 de fevereiro de 2026.











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