AS ÁGUAS DE MARÇO E AS FLORES DE OUTONO ENTRE AS GERAÇÕES
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O tempo escorre como as águas que vão cortando o chão de pedra da vida e amolecendo a terra para que germinem todas as sementes plantadas ao longo da vida de idosos como herança para os netos. Estamos no mês de março, muitas águas já pasaram debaixo da ponte, tanto em tempos turbulentos quanto em tempos de calmaria em direitos, o que é muito raro para os idosos de famílias migrantes.

Chegou o outono e as flores cansadas da vida para muitos que somam os anos para além dos 75 anos, que é a média de sobrevida em nosso país. Estes raros sobreviventes, olhando o que já passou, são convidados a celebrar cada dia como ganho adicional, sem esquecer que o desejo de eternidade garante que a corredeira de nossa existência vai se perder no oceano do Amor Infinito de Deus Pai.
Em certo dia, encontrei na proa de uma canoa, um velho e um menino conversando sobre o rio e o lago do Puraquequara, AM, outrora cheio de peixes.
Eu estava no restaurante chamado Piracaia (peixe assado). Avô e neto não iam sair rara pescar, e sim para passear antes que o lago secasse mais uma vez. O diálogo entre os dois deu para escutar escutar mais ou menos assim:
"Vovô, para onde vai essa água levando os peixes?" Por alguns instantes segurei a respiração, "levantei" as orelhas para ouvir melhor. Quis descer o barranco, aproximar-me da canoa e entrar na conversa, sem saber o que já tinham conversado. De qualquer maneira, aventurei a cantar a música do Tom Jobim, que a saudosa Elis Regina cantou: "Águas de Março" (1972). O verso inicial da letra me levou a pensar, quase em delírio, sobre tão rítmica era a canção com letras tão amazônicas:
"É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol..."
O vovô deste relato deu a entender que, quando menino, a vida significava mil aventuras acumuladas ao longo dos seus 82 anos, muito semelhante ao seu pai que morrera com menos idade. Para tal, bastou escutar ali, ao lado da canoa, para entender e recordar como que os antigos soldados da borracha viviam.
Foi contanto e eu escutando aquele diálogo entre avô e neto. Dizia que quando seu pai chegou do Ceará, em 1887, para trabalhar na extração do látex, no alto Rio Madeira, Am, encontrou os caminhos e as estradas das seringueiras por onde todos os dias andava, pulando tocos e pedras para sangrar a madeira e depois recolher a seiva branca que iria abastecer os horrores das Grandes Guerras Mundiais.
O netinho, da terceira geração do velho migrante, escutando as histórias de seringueiros, foi entendendo com a lucidez de um vidro que a vida de seus antepassados fora de noites e mortes muito mais presente do que os dias de sol com Justiça e de Direitos como prometidos.
Aconteceu que fora fisgado como por um anzol no nordeste do Brasil, através de uma propaganda patriótica, pela qual encontraria o ouro branco da floresta e voltaria rico para sua terra natal, depois de anos de fartura de peixe e de caça. Entretanto, encontraria doenças e a morte, se por lá permanecesse. Resolveu sair do laço que o fazia prisioneiro. Iniciou, às escondidas, a ser pescador, fazendo seus anzóis e hastes de matar pirarucu com pedaços folhas velhas de zinco.
Foi assim que, trocando peixe por sal e se individando, construiu um batelão e numa noite escura e, depois de uma enxurrada no igarapé, desceu o rio e chegou à beira do Rio Solimões.
Contando e ouvindo aquelas histórias das gerações passadas, avô e neto viviam e protagonizavam um diálogo intergeracional que se transformava em uma alternativa historicamente afetiva que servirira para jamais ter a coragem de descartar e empurar os idosos da família para o fundo do quintal ou conseguir vagas em alguma instituição para não morrer abandonado e sem nenhuma memória.

Convido a todos a conhecer os VOLUNTÁRIOS do FAIC (Fraternidade dos Amigos e Irmãos da Comunidade), com os quais me associei para defender os direitos da Pessoa Idosa.
Aproveito para convidar meus leitores e amigos para visitar e apoiar os idosos que por lá residem.
HORÁRIOS DE VISITA
Manhã: 9h30 às 11h
Tarde: 14h às 17h
PARA AGENDAR A VISITA:
RAYANE: 92 98287 9405
THALITA: 92 99982 8716
Manaus, Nelson Peixoto, 7 de março de 2026.



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