OS SONHOS MUDARAM OS PLANOS DE AMIGOS COM NOMES DE JOSÉ, SERÁ QUE ACONTECEU CONOSCO ?
- peixotonelson
- há 3 dias
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"Apesar de serem sonhos humanos e divinos, não eram fáceis de entender e acolher. Depois de cada um dos sonhos, José teve de alterar os seus planos e executar os misteriosos projetos de Deus, renunciando aos primeiros impulsos."(Parafrasiando Pe. Adroaldo Palaoro, SJ)
Reporto-me, primeiramente, para o idoso José de Nazaré, esposo de Maria, que planejava seu casamento com uma jovem de 14 anos, segundo o costume judeu, ocorrido em duas etapas. Um ano de noivado, cada um na sua casa, mas tendo jurado mútua fidelidade. Naquele tempo, quase sempre um homem idoso casava-se com uma menina muito mais nova. Desafiante foi para o velho noivo José, saber da gravidez da noiva Maria de Nazaré. Sabendo do fato, de imediato, por causa de seu grande amor por ela, tomara a decisão de deixá-la, em silêncio, para que não fosse apedrejada, como era costume no patriarcado das leis judaicas. Assim pensava renunciar um grande amor para não difamá-la. Era preciso mudar de plano. Sonhou e ficou ciente e crente que Jesus nasceria sem precisar dele para fecundar sua esposa, porque era obra de Deus. E, agora, José? Ele ficou com Maria grávida e se tornou o pai adotivo de Jesus. Assim acontece também nas tramas de nossas vidas com outros assuntos.

Essa mudança de vivências, as mudanças de trajetórias de vida e de expectativas aconteceram, de fato, na vida de muitos idosos de hoje, mas com relação aos seus sonhos passados. Relato dois "sonhos" com dois enredos conflituosos, apesar de esperançosos. Preciso confirmar que a convivência familiar, a educação e a esperança foram o estopim dos sonhos, com planos que foram se modificando ao longo dos anos.
O SONHO DO JOSÉ BIRRO - Desde pequeno, nascido na pobreza, viveu à margem de um lago piscoso. Imaginava ser dono daquelas águas, de ter seu criadouro de pirarucu e ser o fornecedor de tartarugas para os poderosos da cidade, entre os políticos renomados, padres, juízes, comerciantes e médicos devotados à cura dos doentes.
O fim do seu sonho aconteceu quando a sua filha de 13 anos foi levada por um comerciante para ser empregada doméstica na cidade de Manaus, com o pretexto de estudar, aprender a criar peixe em cativeiro e voltar para o interior, assim realizaria o sonho do pai. Quando voltasse, mandaria a mãe para a cidade a fim de acabar de criar os irmãos, enquanto ela ficaria com o pai no interior trabalhando. Entre estes sonhos e a realidade, o seu Zé Birro acabou nunca mais tendo notícias da filha.
Certo dia, pegou seu rabeta (canoa motorizada com uma pequena hélice numa haste dento d'agua) e foi em rumo à cidade. O motor do rabeta quebrou e não teve outro jeito senão esperar algum barco para socorrê-lo. Enquanto aguardava, ao cair da tarde, adormeceu e sonhou que deveria voltar para seu lago, mas que fosse primeiro encontrar a filha e trazê-la para ser professora das crianças que estavam crescendo sem saber ler e nem escrever. Acordou com medo que sua filha pudesse entrar na vida de prostituição, depois que fosse abusada sexualmente.
Contou-me que fez o que o sonho lhe sugeriu. Não se passaram três anos como professora dedicada para que todos os jovens já soubessem ler. Alegremente, contou-me que os alunos de sua fillha vieram trabalhar o Distrito Industrial, ganharam dinheiro e fundaram uma vila de casas. Ali, o Sr. Birro envelheceu e teve a alegria de ter a filha como gestora de uma Escola Municipal de Educação Infantil.

O SONHO DO JOSÉ MINDUANO - Este amigo é bem perto de minha história pessoal, porque eu mergulhei muito no igarapé do Mindu, que percorre 16 quilômetros dentro da cidade de Manaus, naqueles tempos de águas cristalinas e dos olhos brilhantes dos jacarezinhos à noite.
Então, o Zé Minduano, meu vellho amigo, contou de seus planos para ter um futuro bem sucedido como criador de galinhas caipiras poedeiras. Como gostava de esperar o canto das "penosas", após desovarem no quintal! Sempre corria para pegar o ovo ainda quente e fazer sua gemada com canela, que o lembrava de sua doce mãe.
Diziam na vizinhança que a canela dava imaginação para sonhar. Daí se pôs a pensar: "vou montar uma granja, ter ovos fresquinhos e ganhar dinheiro para comprar um terreno e ficar rico". Seus sonhos pareciam-me ingênuos. Era um sonhador do mundo da lua, sem pé e sem cabeça. E não saía do mero pensamento para a ação corajosa do trabalho. Gostava era do fundo da rede e não do cabo da enxada.
Mesmo assim me contou do dia que despertou da vida mansa e se pôs a pular da rede para realizar seu sonho de granjeiro. Aconteceu que uma grande chuva fez o Rio Mindu (igarapé) inundar suas margens, levar sua areia e descobrir uma mina de pedra avermelhada que servia para construção civil. Esqueceu a criação de galinhas e se pôs a quebrar pedra. Os filhos cresceram quebrando pedra, que se transformaram em pão, feijão, café, macarrão e casa própria, mas não deixaram de estudar.

Nesse momento, depois de escutá-lo, ele me lembrou das passagens da bíblia que relatam as três tentações dos adversários (satanás) do projeto de Jesus:
"Não só de pão vive o homem,
não adianta ganhar o mundo inteiro,
e nem ter o poder de comando da vida das pessoas",
se perder a humanidade no modo de viver.
Os transtornos na vida de José de Nazaré, do José Birro e do José Minduano nos alertam que sonhar é importante, mas que amar não pode se deixar para depois e nem fazer as escolhas profissionais que não contemplam o bem que deixaremos como herança inesquecível do mundo quando morrermos.
Que os idosos que conhecemos nos ajudem a realizar os sonhos que Deus tem para cada um. Que se inspire a corajosa intrepidez de dizer “sim” ao Senhor, que sempre surpreende e nunca decepciona, sempre ajustando os sonhos para a realização da Justiça e da Fraternidade! Graças ao José de Nazaré podemos crer no AMANHÃ, que dependerá dos sonhos com os pés no chão e com as mãos no coração!
Nelson Peixoto, 24 de Janeiro de 2026.











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