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O EMBARCADIÇO QUE SERVIU NAS FRONTEIRAS MILITARES, IRMÃOS QUE NOS PROTEGIAM DOS "LOBOS"

  • há 23 horas
  • 3 min de leitura
Creditos de Gisele B. Alfaia
Creditos de Gisele B. Alfaia

Revisado. O morador do Alto Rio Solimões alegra seus dias com a conversa de suas aventuras, à sombra de uma mangueira. No meio de idosos e idosas com vários graus de envelhecimento e de doenças, sejam por desgaste do trabalho ou de muita pobreza que os maltratou, ao longo dos anos de sobrevivência.


De sol a sol, de noite a noite, navegou por muitos rios que corriam na tríplice fronteira: Brasil, Bolívia e Peru. Ele citava cada rio, um a um, orgulhando-se por ter sido próximo dos militares que protegiam o nosso país, entre  as encostas e baixadas nas divisas geográficas.


Para o meu amigo Miguel, tal qual anjo protetor dos militares defensores da soberania nacional, seu trabalho foi excepcionalmente importante. Ele sabia que os militares das Forças Armadas estavam naquelas "lonjuras" para proteger as fronteiras, isto é, o espaço aéreo e marítimo, além da proteção das riquezas naturais, da biodiversidade amazônica e dos recursos estratégicos do país.


Este nosso anjo Miguel dos Militares protetores do Brasil levava mantimentos, combustível, armas e material de manutenção. Ele sabia que este seu trabalho, transportando alimentos e tantas necessidades, foi decisivo para se sentir valoroso e empregado. Mas lá no fundo do coração, sua rara inteligência nativa questionava porque o  mundo precisava de um aparato defensivo. Ele expôs para mim essa questão de posse e de poder territorial, perguntando porque é assim.


Então, eu sabendo que o sobrenome dele era "Lopes", fui falando-lhe de um filósofo chamado Thomas Hobbes. Você sabe qual a origem do nome "lopes"? Mais do que coincidência, é um nome derivado do latim "lupus", que quer dizer lobo.


Então, fui explicando, mesmo sem concordar, integralmente com o Hobbes, mas para o Miguel entender, o filósofo utilizou para descrever o estado bruto e animal do ser humano que, guiado pelo egoísmo, vira bicho e se faz, por "instinto", o maior inimigo dos outros homens, vivendo em uma constante guerra contra todos que pensam e agem de forma diferente dele.


@giselealfaia
@giselealfaia

O Miguel não concordou que o "homem é o lobo devorador do próprio homem", como dizia o Hobbes, se não houvesse leis. Aos poucos, fui descobrindo a candura do Miguel e observando que ele se comportava mais como gato manso do que lobo feroz.


No meio da conversa que parecia um conflito irreconciliável, fui também amansando minha fala e me sintonizando com ele e com meus princípios humanitários, bem longe da barbárie das guerras e das lutas pelo poder político e econômico. Lembrei-me de Jesus, quando disse aos seus seguidores:


"Prestem atenção! Eu os envio como ovelhas no meio de lobos. Portanto, sejam prudentes como as serpentes e inocentes como as pombas" (MT.10 16).


Foi nesse momento que me veio a noção da realidade, nos seguintes termos: somos anjos e demônios, ovelhas e lobos, cachorro bravo e gatinho manso, águia e galinha...


Nossa conversa foi interrompida, mas deu tempo de contar a velha história do monge, que conta que temos, dentro de nós, dois cães de guarda e de proteção, dependendo de nós para sermos felizes ou infelizes. Basta saber qual deles alimentamos ou deixamos morrer de fome...


Dentro de mim há dois cachorros: um deles é cruel e mau; o outro é muito bom. Os dois estão sempre brigando. O que ganha a briga é aquele que eu alimento mais frequentemente.


Nelson Peixoto, Manaus, AM, 11 de julho de 2026




 
 
 

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