O VELHO TURCO QUE APRENDEU A SE PROTEGER PORQUE VIU SANGUE
"Quando o machado entrou na floresta, as árvores disseram: o cabo é um dos nossos" (Provérbio turco)

Revisado. O que vem ao meu pensamento com esta declaração das árvores bem poderia ser o sussuro de um ribeirinho que morava na pequena várzea em frente à terra firme que se entendia, em subida, por trás de sua casinha de palha. Afinal, sentiu-se, certa vez, traído pelos companheiros que juraram não derrubar as madeiras de pau-rosa para os regatões que abasteciam as usinas de destilação em Manaus.
Foi diante desta traição que me veio à memória este ditado turco, saído da boca do velho filho de libaneses que não teve sucesso como regatão nas beiradas do Rio Solimões. Perguntei: "Por que você fracassou, se os teus compatriotas ganharam dinheiro e aumentaram seus negócios, abrindo lojas no antigo porto, bem antes da atual Manaus Moderna, como é conhecido?".
Foi me dizendo que seu pai, igualmente, não enriqueceu vendendo mercadoria e comprando produto. Melhorou de vida quando começou a comprar madeira em toras que arrastava para a serraria de um outro turco que tinha o seu mesmo nome, lá pelos anos 1970.

Para entender o ditado turco que abre este texto, preciso conhecer de onde vem o nome em seu registro de identidade. O nome próprio Agapito vem do grego Agapetos, que deriva da palavra "agape", que significa amor, especialmente o amor altruísta, espiritual ou incondicional. Por causa disso, o nome tem o significado literal de "amado", "querido" ou "amável", inclusive, apesar das árvores cortadas com machado.

O fracasso nos negócios comerciais de nosso personagem vêm em decorrência do significado do seu nome. Pois bem, o Sr. Agapito recebeu de herança uma extensão de terra, de onde retirava a madeira para vender em toras, que seu motor arrastava para a cidade, vendendo para o seu xará, que não prosperou porque não tinha como investir nas mais recentes serras elétricas da época.
Mas o Agapito, neto de libaneses, ouvira falar de Alexander von Humboldt, que, em suas viagens, levou uma sintonia afetiva com as árvores por ser botânico.
Humboldt foi um cientista e o precursor de uma visão integrada e interconectada entre as espécies, a geografia e o ser humano. Como naturalista, viajou pela América do Sul, chegando às cabeceiras do Rio Negro, mas foi impedido pelos portugueses de entrar no Brasil porque fora considerado espião pela Espanha. Mesmo sem passar pelo Amazonas, foi considerado um dos pais da Ecologia Integral e do ambientalismo. Se tivesse chegado no Rio Amazonas, jamais voltaria, como os pais dos Agapitos.
O nosso Agapito, certa vez, viu o lacre vermelho de uma árvore decepada perto da raiz e imaginou ser lágrimas de sangue. Aprendeu a chorar e a compadecer-se com as dores da natureza e dos bichos. De fato, a seiva das árvores, popularmente chama-se sangra d'água: uma expressão muito usada no Brasil para seivas líquidas, incolores ou avermelhadas, que jorram quando massacradas pelos machados.

Não deu outra, a sensibilidade do Agapito adquiriu uma nova forma de ganhar a vida. Lembrou-se do velho ditado turco e resolveu fundar um sindicato de trabalhadores operadores de serras, em parceria com os lenhadores que se perdiam e se escondiam na floresta, até chegarem as chuvas para encher os igarapés.
As toras sacrificadas de madeira da mata, embora manchadas de sangue, podem ou não continuar a abastecer as serrarias de alta tecnologia, em detrimenento da biodiversidade. Fica a dúvida, se a floresta rasgada, pavimentada e asfaltada, neste modelo predatório da natureza, dará o golpe final e letal na floresta, aplicando-se o ditado popular: "O RISCO QUE CORRE O PAU CORRE O MACHADO".
Nelson Peixoto, Manaus 28 de Junho



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