O IDOSO AMIGO E FIEL DE PRESOS, RESTAURADOR DE VIDAS E SONHOS

Conheci há alguns dias um senhor,beirando os 76 anos, que também poderia chamá-lo de restaurador de vidas quebradas e reconciliador. Contou-me que, quando era criança, acompanhava o pai que quebrava pedras debaixo de uma velha ponte.
As mãos se machucavam com as marretadas que dava, quando as pedras deslizavam no impacto da força sobre elas. Disse-me que ainda deve haver pedras com marcas de seu sangue nos alicerces das casas, sendo pisadas com pés calçados dos moradores da Vila Moema, que já trocou de nome. Chamou-se depois de Vila São Bento e, hoje, é o Residencial Santa Madalena.
Crescido como esperto quebrador de pedra, aprendeu na juventude a usar explosivos para detonar as pedreiras do igarapé do Mindu. Suas andanças pelo mundo não o fizeram esquecer daquele tempo de destruidor de pedras e de usuário de bombas.
O tempo passou e ele aventurou-se a ser pescador. Fez experiência de usar explosivos para assustar , matar peixes e encher seu barquinho de pesca. Acabou sendo denunciado e preso, por alguns dias. Um "advogado de porta de cadeia", no bom sentido, que fazia parte da pastoral carcerária, sabendo de sua história, defendeu-o como cliente e conseguiu com que jurasse de nunca mais matar peixes com bombas, promovendo a fome em comunidades ribeirinhas. Que ele procurasse sua velha ocupação de quebrador de pedra ou detonador de rochas para a construção civil.
Aconteceu que pensou muito, mas teve foi vontade de participar da pastoral carcerária, por um só motivo: queria servir na cura dos corações quebrados pelos crimes cometidos, daqueles que esperavam para ser julgados e que viviam nas misérias das prisões superlotadas da cidade. Para sustentar a família, abriu a porta de um pequeno comércio na sua casa num antigo conjunto habitacional que não era da "Minha Casa, Minha Vida". Destinava todos os sábados com mais dois amigos à prática da obra de misericórdia de visitar os presos, hoje, chamada de Pastoral Carcerária.

As condições higiênicas do labirinto da prisão e as políticas de punição do Estado levaram-me ao estudo que já fizera o sociólogo francês Loic Wacquant em seu livro " Prisões da Miséria", obra que dá para entender como o Estado passou a usar o sistema penal como solução para problemas sociais, gerados pelo desemprego , pela desigualdade e psicopatia.

Entretanto, meu personagem não alcançava esse entendimento, porque seu desejo era poder ajudar os detentos de corações e vidas alquebrantadas. Ele não sabia o que fazer, mas sabia ouvir e o que dizer, na hora certa, baseando-se em sua experiência de quebrador de pedra e de detonador arrependido de bombas para matar peixes.
O tempo foi passando e ele envelhecendo. Caminhava para aquela prisão todos os sábados, visitando os amigos que conseguiram, por bom comportamento, reunirem-se para rezar e se consolarem, dando fim às brigas naquele pavilhão, acreditando na centelha da liberdade e da reconciliação.
Acreditou no que disse o meu xará Nelson Mandela, que, sem crime algum, padeceu no cárcere: "A liberdade não é apenas quebrar as correntes, mas viver de uma forma que respeite e aumente liberdade dos outros".
O meu camarada, humanizado e solidário aos sofrimentos da alma e do corpo, nunca acreditou que a política de segurança no Brasil, unicamente, dependeria da construção dos presídios e da morte sumária dos "bandidos" pobres e negros, em sua maioria.
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Nelson Peixoto, Manaus, 12 de setembro de 2026.



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