AGRICULTOR IDOSO FAZ O CHÃO FLORESCER E ESQUECER SUA DOR
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O idoso Francisco Lino, depois de anos vigiando portões e entradas em condôminios, sonhava em voltar a semear e produzir temperos e verdurinhas no seu pedaço de terra, em Goiás. Pouco era seu chão duro, mas cavado e hidratado com suor do rosto e o sereno das noites. No clarão da lua, seu quintal se agigantava com os reflexos de luz nas folhagens em movimento. Era seu novo tempo de contemplação, admiração, gratidão e redenção.
O vento levava para mais longe dali o tempo de cidade grande e de noites acordadas por causa de sua velha atividade de vigilância em seu tempo de jovem pai. Ele foi me contando algumas passagens da vida, de antes e de depois de seu tempo, quase perdido, na cidade grande.
No Rio de Janeiro, RJ, sem dinheiro, fazia sua cama e lençol de papelão, enquanto descansava a cabeça num tijolo de construção. Numa das manhãs movimentadas, ainda se arrumando para perder ou ganhar mais um dia, apareceu um senhor, chamado Pinheiro Machado, bem antes de pôr a mão para o céu, dando bom dia e procurando um vigia ou porteiro. "Eu mesmo", respondeu. Convidou-o para acompanhá-lo e mostrou um prédio de 11 andares e deu um quarto para morar. Adormeceu naquela noite num quartinho com cama, porque revelou a verdade. No dia seguinte, já estava empregado, permanecendo naquela experiência quase dois anos e meio.
Tendo mudado de síndico, apareceu uma "galega", como me contou o Francisco Lino, exigindo que ele passasse a cuidar das plantas, pintar os portões e passar a ser "pau pra toda obra". Reclamou e aplicou uma mentira. "Se eu cuidar de plantas do jardim, tudo aqui vai morrer, porque eu tenho mão de praga". Mesmo assim não deixava as plantas morrerem de sede. "Tirei minhas férias e voltei a trabalhar, tornando-me amigo do subsíndico, que era um português".

Em Goiás, a mulher ia dar à luz seu filho, quando a saudade bateu forte, levando-o a pedir demissão, só sendo aceito caso arranjasse um outro vigia igual a ele, exigiu o português subsíndico. "Fui às quebradas que conhecia e encontrei o Zé Barrote, que ficou no meu lugar. Assim eu retornei a Goiás".
Voltou para a sua cidadezinha, melhorou o barraco, mas adiou seu desejo de trabalhar a terra vermelha de sua pequena propriedade. Escolheu ficar mais perto, indo à Brasília, DF, mostrar sua qualidade como porteiro.
Foi nessa função que eu o conheci, quando foi escalado por sua empresa para trabalhar na portaria da Aldeia SOS de Brasília, onde eu era o gestor, meses antes de voltar para Manaus.
Continuamos amigos e sempre tive notícias após abandonar a profissão e voltar a amar a terra e ver os frutos florescerem, apesar de sua idade avançada e as dificuldades para as doenças da velhice. Trocávamos informações sobre nossas plantas e mudas de frutas, sementes e flores cultivadas.
O Sr. Francisco Lino não tem vergonha de ser atendido pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e de conseguir gratuitamente seus remédios de uso contínuo. "Por isso que vou votar no Lula", declarou.

"Hoje, eu como o que produzo, vendo minhas verduras e me alimento bem para não ficar doente".Disse que os governos do Brasil ainda não fizeram uma Reforma Agrária que mudasse profundamete o mapa da fome, e não tornasse as cidades insuportáveis de se viver.

Mas há uma grande verdade sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), é que ele é o maior sistema público, universal e gratuito de saúde do mundo, em um país com mais de 213,5 milhões de habitantes, garantindo atendimento a qualquer cidadão, embora sofrendo com o financiamento insuficiente e as emendas parlamentares, até porque o pior dos males geradores das doenças é desigualdade social e ainda a precária proteção social básica.
O Francisco Lino deu plena autorização para eu postar a sua foto e me disse pelo áudio:
"É para mostrar que eu estou na batalha, na quebração do milho, feijão, arrancação de mandioca, cortação de cana..."
A vida do Francisco nos mostra um avanço na proteção social básica que destaca o acolhimento, a prevenção de riscos e a garantia de direitos humanos. Elas reforçam que o cuidado comunitário é um dever do Estado e um pilar de justiça.
29 de agosto de 2026
Nelson Peixoto - Manaus, AM



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