ANOS DE RUA E SOLIDÃO NOTURNA- ATÉ... QUANDO SONHAR SAIR DE LÁ?
Atualizado: 18 de jul.

Há 10 anos este meu amigo que sempre vejo carregando sacolas e rondando um supermercado de bairro, faz sua cama de papelão em uma das portas, tendo certeza que no amanhecer terá um pãozinho e uma xícara de café.
Antes de dormir, fechadas as portas do estabelecimento, faz uma limpeza geral, varre as sujeiras e arruma sua cama, tornando-se um guardião solitário, confiado e confortado pela certeza do pão do dia seguinte, como pagamento pela limpeza e da vigilância.

Pus-me a pensar, olhando os olhos fundos no rosto moreno, marcado pelo abandono, mas não por Deus. Será que ele pode rezar o "Pai Nosso" com honesto sentimento de fé?
Ou apenas clamar Deus de Pai, sem crer que seja irmão, entre muitos outros "santos" e preferidos por Deus, de sua igual condição, no meio daqueles que se dizem ter mais méritos perante Deus?
Observei nas palavras e no jeito pacato de ser de fé silenciosa, no sentido de ser interior, tão profunda que dispensa explicitações. Ou seja, uma fé de confiança que elimina os medos e se move no jeito de ser e de seguir os dias e as noites na esperança.
Ele me conta que mora onde dorme, e nem me falou onde toma banho, ou se espera a chuva para depois mudar de roupa. Neste contexto da conversa, veio-me a palavra de Jesus:
"E por que se preocupar com a roupa? Observem como crescem os lírios do campo. Não trabalham nem fazem roupas e, no entanto, nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como eles" (Mt.6 28).

Exatamente assim, ele foi me revelando o segredo de sua veste de anjo, questionador de nossas consciências. Disse-me que depois, de 4 a 5 dias, ganha uma outra roupa para repor a usada, que desapega, sem piedade como tantas outras coisas que abandonou.
Com esse depoimento, fui em busca de sua história de vida. Contou-me que, esteve no chamado "projeto" junto com sua companheira de rua, que era uma prima, mas que se converteu, deixando aquela vida de rua. Num certo acordo, eles resolveram seguir suas escolhas ou possibilidades. Sem a companheira, consolidou sua condição de "santo, pacato e confiável" homem de recados e entregador de compras, sempre a pé, cruzando a frente dos carros.
Tinha acabado de encontrar no lixo, uma sandália feminina e, mostrando-me, disse que ia ajeitar as unhas e cortar a barba, antes que lhe arrancassem. Nesta hora, veio-me à mente o choro contido do Profeta Isaías, em nome de todos os injustiçados e maltratados do mundo.
A Igreja atribui a Jesus, identificando-O com todos os feridos deste mundo desigual: "Ofereci as minhas costas aos que me batiam e o rosto aos que arrancavam a minha barba. Não tentei me esconder quando me xingavam e cuspiam no meu rosto. Mas eu não me sinto envergonhado, pois o Senhor Deus me ajuda. Por isso, eu fico firme como uma rocha e sei que não serei humilhado, pois o meu defensor está perto".

O amigo levantou-se, foi caminhando, defendendo seus amigos da mesma condição, levando a paz, revelando a santidade próxima a São Francisco de Assis, varrendo e limpando quintais, em silencioso protesto por não concordar com este mundo desigual, onde muitos ficam indiferentes ou mudando a direção dos passos ou do olhar.
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Nelson José de Castro Peixoto,Manaus, 18 de julho de 2026.



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