O CHEIRO DO PÃO - A PRODUÇÃO CURIOSA E A SANTA DISTRIBUIÇÃO, ANTES DA CHEGADA DOS VENENOS
- peixotonelson
- 5 de dez. de 2025
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Contaram que as padarias de antigamente, de uma cidade ribeirinha, exalavam um cheiro tão apetitoso, que dava água na boca de quem aportava de barco ou de canoa. O velho Chico da Rubina, com seu tabuleiro na cabeça, dobrava a esquina, marcando o passo por estar trazendo os pães, com o cheiro que chegava na frente. Ele vinha com a segunda remessa de pães para vender a clientes avulsos. Afinal, durante toda a sua vida adulta, acordava de madrugada e distribuía o pão mais gostoso e crocante do local.

O filho do Chico acompanhava o pai nessas andanças, pois falou-me da sensação que sentia quando adentrava nos corredores da padaria que levavam até o forno. Algo indescritível acontecia dentro de si, só pensando no sabor que aqueles pães mágicos guardavam dentro da boca e se espalhavam como perfume pela cidade.
Um outro velho amigo contou que no internato que viveu, durante um ano, naquela cidade, esperava ansioso pelo pão que aparecia na mesa do café.
Afirmava que aquele pão simples e sem manteiga era tão delicioso que superava o sabor do queijo e do presunto que poderiam estar dentro. O segredo da magia saborosa dos pães, na época, tinha requintes de falta de higiene? A massa era pisada com o movimento ininterrupto dos pés, com o corpo suado do esforço, além do calor do forno atiçado por um certo tipo de lenha. A imaginação levava aquele menino ao delírio ao afirmar que o pão fora defumado, do jeito que a sua avó Rubina fazia.
O seu Chico Padeiro era muito mais que um entregador de pão. Ganhou a vida trabalhando para todas as padarias da cidade, levando a alegria da boa conversa e incensando as ruas com o cheiro do pão. Naquele tempo, não havia Ifood, mas antecipava este serviço, quer faça chuva ou não, nos sábados e domingos, até nas madrugadas silenciosas ou dos últimos sons da festa. Nas janelas das casas, deixava o pão, ainda quentinho e cheiroso, parecendo um presente divino, que lembrava Jesus quando disse que era o "Pão da vida, pois quem comesse não morreria para sempre". No caso de Jesus, tudo era de graça, sendo o Pai e o Pão Nosso de cada dia.

O Chico nunca deixava fiado, e se deixasse, era mediante a jura que exigia do freguês, dizendo assim: "venho de tarde e você me pagará, sem desculpas, mesmo se eu te encontrar a velar tua mãe, mulher ou filho." Com essa admoestação, nunca ficou sem receber o que deixava fiado por algumas horas. Mas não foi assim, no começo do seu ofício. "Pegou cano" de muita gente, portanto, deixava de pagar o dono da padaria e precisava migrar para trabalhar para outro patrão, a fim de ser honesto e responsável, ter o direito do resultado do trabalho e ainda deixar que seu filho levasse para os pobres da cidade.
O pão tornou-se um alimento básico e um símbolo econômico, religioso e cultural em várias civilizações. Na história do pão, vemos que Jesus se serviu para se autoidentificar como o Pão da Vida. Distribuir o pão, de grãos triturados é comparável ao trabalho de anunciar Jesus, desejando que todos, ao sentar à mesa ou no chão, sentissem que Ele estava no meio, comendo junto, sem deixar que ninguém passasse fome ou sede de pão e de Justiça, mas comendo e bebendo do seu próprio Corpo e Sangue.
Nos dias de hoje, o cheiro do pão sovado com a ajuda dos pés dos padeiros, que usavam um saco vazio de trigo na cabeça para não temperar de cabelo a massa, não é mais assim. Também o cheiro se perdeu na saudade, por desejo do lucro. O uso do bromato veio para aumentar o tamanho do pão e diminuir a quantidade de trigo na massa. Apesar de proibido, ainda encontramos padarias que usam. Esse agente químico reforça o glútem, cria bolhas de ar, faz crescer a massa e torna-se um risco para a saúde, pois é um elemento cancerígeno.

Triste saber dessa realidade que transforma o pão da saúde em pão da morte. O Seu Chico da Rubina presenciou essa perversão nos últimos dias de sua vida. Como cearense que se amazonizou e viveu na floresta, trabalhou entregando pão para criar os filhos, mas acreditava que a batata-doce, o cará, a pupunha, as bananas, macaxeiras e tapiocas voltariam a ser as melhores opções para o café da manhã muito mais abençoado.
Dos três alimentos brancos, trigo, sal e açúcar, livrai-nos, Senhor! Ensina-nos a moderação!
Nelson Peixoto, 06 de dezembro de 2025











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