MARIA SALETE, OLHOS DE LUZ A NOS VER, VOO DE PÁSSARO, FLOR-DE-LÓTUS, REPOUSO FELIZ NO CÉU.
- 26 de jan.
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Atualizado: 30 de jan.

Era domingo, às 9 horas da manhã. Chegava atrasado para despedir-me da Sassá, como todos a chamavam, carinhosamente. Era um triste momento para mim e para a Luzia Maria Piassa, que sempre a visitava há mais de 20 anos, com generosa assiduidade.
Começamos a conversar um pouco sobre a história de vida da Salete, que acabara de ser levada para cemitério Recanto da Paz, no Iranduba, Am.
Notei nos olhos dos idosos presentes a tristeza que a Salete nunca demonstrou, apesar de sua deficiência visual, desde quando fora acolhida na ILPI, da Fundação Dr. Thomas.
Naquele cenário de saudade, logo após a funerária levar o corpo da Salete, os olhos da Dona Graça estavam brilhando com as lágrimas, mas pôde me dizer solenemente: "A Salete está vendo tudo agora e sentindo como Deus é bom, por estar abraçando-a como muitos de nós fizemos em vida terrena com ela. Pois é, nada escapa do olhar da Salete, que parecerá sempre como os olhos amorosos de Deus sobre nós, suas amigas, que ficamos para chamar para si, no tempo certo, todos aqueles que amaram e deram atenção aos direitos dos idosos".
Salete teve uma significante e chamativa vida para a comunidade externa da ILPI, a fim de conhecer e a apoiar as ações desenvolvidas pela Fundação Dr. Thomas. Da minha parte, existia muita curiosidade sobre sua vida, de muito antes, daqueles primeiros tempos de sua chegada há 32 anos.
Ela conheceu o crescimento da qualidade e a construção da ILPI, que deixou de ser “Asilo de Velhos”, passando por diversas fases e governantes, inclusive pelo novo marco jurídico do Estatuto da Pessoa Idosa, ao início deste ano de 2026. Desde os galpões ou pavilhões ao momento presente de valorização de cada idoso ou idosa, em sua singularidade com cuidado e atenção personalizados.

Maria Salete Pereira do Amaral viera do Maranhão, certamente sofrida com o machismo da época, que segundo uma residente disse-me que ouvira falar que ela "abandonara" os filhos e viera para Manaus, passando em várias cidades, como quem fugindo da violência do jeito que foi possível, viajando em caronas de caminhões rodando as estradas do Brasil. Não sei ainda como chegara a Manaus. Uma amiga, muito antenada aos comentários que ouvia, disse que Sassá sofreu muito, antes de chegar à Fundação Dr. Thomas, em 1993.
Quanto à deficiência visual, fora progressiva, pois ouvi alguém falar que houvera um erro médico, pois já chegara à ILPI com visão parcial, que perdurou até perdê-la por completo, sem se abater de tristeza, e se dedicando a muitos com carinhosa atenção. Audição e olfato, sensibilidade à flor da pele e do coração a faziam sofrer, mas nunca a desaminaram. Sentia, a distância, o perfume da amiga Luzia Maria bem antes de encontrá-la. Reconhecia pela voz todos que a cumprimentavam. Vislumbrava-se com a beleza das flores e das plantas medicinais pelo toque e até sabia a identidade dos pássaros cantadores da madrugada e do fim da tarde.
Salete chegou a se casar com um residente por alguns anos, mas logo ficou viúva. Ainda contraiu novo compromisso com outro residente, mas que também faleceu. Resolveu abrir e expandir o coração para todos que a conheciam e vinham visitar a instituição. Tinha o amor e a delicadeza de tratar as pessoas e de ser bem tratada pelos funcionários, técnicos, visitantes e residentes como ela. No funeral da Salete, veio sua filha Patrícia, muito fiel nas visitas e ao levá-la para sua casa e a passeios. Trazia sempre o neto, que desta vez veio para despedir-se da sua avó querida e sentir a saudade do carinho que do que sempre recebia quando a encontrava.
Todos com quem eu conversava tinham uma memória feliz e alegre da Salete, pois foram contagiados pela simpatia, inteligência, criatividade e o jeito de ser da Salete, apesar de ter sido por ela mesma considerada idosa demais para aprender braile. Mesmo assim, deixou um lindo e profundo legado de sabedoria e protagonismo. Mesmo com seus limites, fora compositora de "jingels", com música e letra, como peças publicitárias para políticos em tempo de eleição. Sua vida foi cheia de homenagens e, no ano de 2025 e nas condolências pós-morte, dois fatos mostram a sua grandeza como pessoa.
Da parte do Ministério Público, encontramos o seguinte reconhecimento institucional:
"A história da Salete foi tema do Painel de Acompanhamento das Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) do Estado do Amazonas, iniciativa do Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM), que destacou a moradora como exemplo de cuidado humanizado e respeito ao envelhecer."

Da parte do o diretor-presidente da FDT, Eduardo Lucas, em nome de todos:
"Neste momento de dor, a Prefeitura de Manaus se solidariza com familiares, amigos, servidores e todos que conviveram com Maria da Salete, expressando suas mais sinceras condolências e o reconhecimento por seu legado”.
CONCLUSÃO, GRATIDÃO E APELO :
Damos graças a Deus pela vida inteira da Salete e de seus desafios que a tornaram resilientes e ressignificados, desde que fora acolhida na Fundação de Apoio ao Idoso Dr. Thomas.
A gratidão, que ela vive agora em Deus, refere-se a todos aqueles que a amaram e a valorizaram no percurso de sua vida. E foram muitos aqueles que se emocionaram com sua partida para Deus!
Ela deixou esse mundo ainda "cega", sem ter visto a realização dos direitos da Pessoa Idosa universalizarem-se para todos os idosos empobrecidos residentes nas ILPIs ou nas Casas de Abrigo alternativas, ter as condições materiais, psicológicas e médicas para morrer com dignidade, como aconteceu com ela, a nossa inesquecível amiga MARIA SALETE PEREIRA DO AMARAL.
Manaus, dia 30 de Janeiro de 2026 - O Sétimo Dia 7 de Saudades e de Esperança!.
Nelson Jose de Castro Peixoto




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