O ANCIÃO E SEU AMOR PELO MEL A PENSAR NO LAMPIÃO NORDESTINO
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Ele era um cearence raiz, chegado no Amazonas, quase no final dos tempos da borracha, que nem gado, tocado pela fome e pelas cercas do latifúndio, herdadas pelos coronéis que combateram a busca da justiça que o Lampião e Maria Bonita, com seu grupo revolucionária e também criminoso, segundo as contradições entre mito e história, atiçaram a vindança dos poderosos das terras, apossadas nos cartórios corrompidos pela fraude.
Ele tinha pouca terra com pés de cana de açúcar, ao redor da casa de taipa, nem parecia com os currais da fome que, anos mais tarde, o governo criava para barrar a migração à Fortaleza, a fim de salvar sua imagem de cidade do progresso. Era preciso manter a cidade sem as levas de migrantes expulsos, também pela longa estiagem de chuvas.

O velho Cabrinha chegou com rede, mala e cuia, e sem cachorro, para o seu patrão, em um seringal no alto Rio Juruá, AM. Apesar das desgraças da sua terra natal, lembrava de seus pés de cana ao redor da casa, construída com galhos secos e barro amassado que aliviava o calor do sol. Situava-se perto de uma cisterna, de onde tirava água para beber e molhar seu pequeno canavial. De lá, conseguia seu sustento, fazendo rapadura e mel de cana. Mas a estiagem o expulsou para o Amazonas distante e cheio de esperanças.
Interessante foi eu escutar do Cabrinha, que a sua saudade tinha nome: era o seu pequeno engenho, o velho tacho de latão que produzia o melhor mel do mundo, segundo sua autoestima em suas lembranças no novo tempo de amarguras e de cobras venenosas na floresta.
Além da saudade do mel de cana, lembrava-se das histórias do Lampião que um amigo sergipano contava, mas que sempre lagrimava da crueldade que fizeram com ele, só porque defendia os pobres sem terra, e às vezes, se fazia, com seu bando, um papel de milícia do coronelismo. Seu amigo dizia que a cabeça do Lampião e de seus comparsas foram expostas em latas de querosene, em várias cidades do Nordeste.
E verdade que a história do Lampião foi contada pelos dois lados da sociedade nordestina. Eu fico do lado dos pobres sem terra, e não aceito a versão dos poderosos proprietários de terra, embora reconheça as contradições que se conta do bando do Rei do Cangaço. Parece que o nome cangaceiros, vem significar a forma com que esses heróis derrotados, carregavam suas armas de fogo, como o jeito que o boi levava sua carga ou canga no lombo.

Você sabia, caro leitor e leitora, que esse jeito de levar as armas de fogo e a rapidez que o Seu Virgulino (nome registrado do Lampião) ganhou esse apelido? Disse-me o saudoso amigo do mel que, nas noites escuras, o chefe do cangaço, atirava tão bem e rápido que parecia estar de dia, de tanto relâmpago iluminando os caminhos. Daí, o Lampião recebeu a homenagem à sua fama de bom atirador.
Naquele mundão, distante da saudade e do heroísmo do cangaço, o velho amigo só se lembrava do bagaço de cana, sentindo o gosto amargo de sua nova vida na floresta, matando cobra e abastecendo os seringalistas que sobraram para finalizar a epopéia dos soldados da borracha.
Não quero que pareça uma blasfêmia, mas Jesus disse que todos nós somos "luz do mundo", sobretudo, quando ensejamos um mundo diferente e libertado. O Lampião fez sua parte, mesmo cheio de contradições e violências, vinganças, até termos aprendido que a violência gera violência, no rastro de Jesus, que Mahatma Gandhi pregou, sem tréguas:
"A não-violência é a maior força à disposição da humanidade. É mais poderosa do que a mais poderosa arma de destruição concebida pela engenhosidade humana." (Gandhi)
Nelson Peixoto, Manaus, 30 de maiode 1026



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