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ANA CASTANHAL E O LUIZ MOGNO -GENTE EM ESTRADAS AMAZÔNICAS UM SONHO POSSÍVEL E COLETIVO ?

  • há 17 horas
  • 4 min de leitura
Foto de Gisele B. Alfaia
Foto de Gisele B. Alfaia

Sempre surpreendo-me quando ouço idosos que amam a terra e celebram a abundância dos frutos do trabalho e chegam para contar suas histórias de vida, quando estão cheios de saudades. Nem sempre é possível encontrá-los felizes com o suor resultante de muitos anos de trabalho, cultivando e regando o chão, acreditando na força das sementes e das tenras mudas de plantas.


Encontrei a agricultora Ana Castanhal, na Feira do Manaus Plaza Shoppjng, distante do seu "templo" (sítio), que frutificou vida e saúde para a cidade. Naquela tarde, estava longe do seu "Simeão" (marido) que se chama Luís Mogno. Depois, eu conto porque passei a chamá-los por estes sobrenomes, usando bens da floresta, conhecidos na história da Amazônia, inclusive exportadora de castanha e da madeira, tão preciosa para a confecção de móveis.


Desta vez, fervilhava de gente comprando na feira os bens produzidos pelos colonos que vinham das estradas, onde alguns tiveram o direito de ter seu pedaço de terra, que necessariamente não precisava ser um lote individual de posse, pois a cultura ribeirinha entende e pratica o plantio em territórios mais coletivos, cujo trabalho na terra se define, segundo a socióloga Katia Helena Schweikardt aborda em seu livro "Faces do Estado na Amazônia -Entre as Curvas do Rio Juruá" (2022). Entretanto, o nosso casal de idosos não era ribeirinho, mas "sem terra" chegados de Mato Grosso.


O INCRA (Instituto Nacional de Reforma Agrária) realizou o sonho de deste casal, para eu poder contar a história surpreendente da Ana e do Luiz, atualmente, com a idade, entre 65 e 70 anos. Chegaram em Manaus, há 40 anos, para uma vida nova, com a força dos braços para cultivar a terra, numa época dos primórdios das plantações de soja no Centro Oeste e no Sul, que agravaram a ocupação da terra por grandes proprietários, faltando terra para a agricultura familiar.


Coincidentemnete, já se passaram mais de 40 anos do MST (Movimento dos Sem Terra), que se justifica como o rincial e mais inteligente movimento social de luta pela posse da terra, iniciado com o direito de um lote para produzir. Entretanto, no Amazonas, mas do que na fronteira agrícola dos estados do Acre, Rondônia e Mato Grosso, o INCRA trabalhava na regularização da terra dos posseiros, e de uma certa maneira, não cabendo no modelo de luta por um pedaço de chão individualizado. Na realidade amazônica, de extrativismo (seringa, pau-rosa, sorva, etc..) e de pesca, entre outras atividades, exigia-se um outro modelo de luta pela terra. Entretanto, tanto o MST e o não esqueceu do trabalhar com a agricultra familiar, mas com a produção coletiva e o cooperativismo.


Nosso lindo casal de entrevistados, disseram-me que. antes de conhecer o chão nativo amazônico e seu potencial produtivo, a mulher valente e inquieta, chamada Ana Castanhal, fez uma experiência como empregada doméstica nas casas ricas da cidade. Não era o que seu coração pulsava e seus braços pediam. Via sua liberdade tolhida a fazer as mesmas tarefas que, de repetidas, estava apagando o sonho de cultivar a terra e ver a vida verde florescer e sombrear seu futuro. Foram nessas horas de solidão que ficou sabendo dos projetos do INCRA, em termos de poder inscrever-se para ter direito ao lote de terra, em uma estrada vicinal da AM- 010 ( Manaus - Itacoatiara). O horizonte se abria, e nem se importava de viver nas florestas e perto dos bichos.


Não demorou para ser sorteada e ser levada para o centro da floresta e tornar-se dona do pedaço de chão, junto com seu companheiro Luís. As primeiras noites, morando em um casebre que construíram, pareciam tenebrosas e inacabáveis, ao contrário do dia, no qual andavam na floresta, apanhando frutas silvestres e matando cobras, mas conhecendo todo o potencial do terreno. De noite, ouviam esturros de onça, gritos das guaribas, cantos fúnebres da corujas de olho grande e de pescoço elástico.

Plantaram de tudo que era semente, cupuaçu, manga, abacate, laranja, côco e tantas outras, que me faziam lembrar da parábola de Jesus como semeador em terra boa ( Lucas 8 ). Ana e Luis (Ana e Semeão) com Jesus no colo, em velhice avançada, sabiam que aquele menino era a Semente do Reino de Deus, que no mundo traria o fruto da Justiça e da Paz, da fartura e de um mundo sem exclusão.


Contabilizando suas plantações, hoje, as árvores da Ana Castanhal são 200 castanheiras. Quanto aos 70 mognos, o milagre foi que o vizinho abandonou o canteiro de mudas que o Luis socorreu, transportando ainda vivas para a seu lote.


Mesmo com a vitória que eles têm na velhice, não perderam a esperança de que o Brasil ainda terá sua revolução agrária, que inclua as condições de assistência, tal como tiveram pelo INCRA, mas também de adubação da terra sem agrotóxicos, transporte e cooperativas multiplicadas de agricultura familiar, com medidas de preservação das florestas, apenas com a metade dos subsídios que o agronégócio recebe para vender aos outros países. Importa tambem a agricultura familiar para que o Brasil alimente seu povo, saia da miséria e abasteça o mundo.


Um técnico agrícola, que assistia nossa conversa, completou com o sonho, de modo retroativo dizendo: "Se o MST (Movimento dos Sem Terra) tivesse se aliado ao INCRA para uma Reforma Agrária efetiva, dentro de um modelo agrícola popular, dialogando com a cultura extrativista e ribeirinha com acesso legítimo a um pedaço de chão, não veríamos a titulação de terras para quem grilou, por força dos lobies do Congresso (Senado e Câmara Federal), mas um Brasil bem diferente, onde ninguém passaria fome ou que dependesse das políticas compensatórias.


Nelson Peixoto, Manaus, 06 de junho de 2026




 
 
 

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