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A IDOSA QUE SONHA PORQUE NÃO FICOU COM O JOVEM NAMORADO

  • 22 de mai.
  • 3 min de leitura
@giselealfaia
@giselealfaia

Ela estava sentada na canoa, esperando com seu velho marido, que chegasse um comprador do lote de cupuaçu, trazido do sítio. O casal deseja retornar, levando os remédios para o filho que ficara no fundo da rede, devido uma ferrada de arraia. A idosa vendeu todo o lote e o velho marido saiu para comprar os remédios. O comprador do cupuaçú pagou, mas ainda vinha buscar as frutas.


Cheguei tarde para comprar, mas resolvi ficar conversando com a idosa, naquele momento a sós. Perguntei pelo marido, mas ela me disse que quando era jovem namorou um menino que se parecia comigo.


Foi aí que a memória afetiva da "velha" entrou em convulsão. E ela foi me confessando sobre aquele que fora a primeira e única paixão de sua vida. Comecei a ouvir e logo percebi que tinha uma alma poética, quase delirante.


Ela falava das músicas de sua época e associava à canção principal do filme Dr. JIVAGO, que chamava-se Tema de Lara. Coincidentemente, era o seu nome de registro. Ela não se cansava de assobiar aquela melodia nostálgica, que trazia saudades e emoções, com uma grande diferença de cenário. A Lara do filme morava na Rússia revolucionária, enquanto que a Lara, ali na minha frente, era das beiradas caídas do Rio Solimões.

@giselealfaia
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Enquanto, esperava seu velho, achando-me parecido com seu namorado do passado distante, começou a me contar. "Ele, o Jô, já tinha um compromisso de casar comigo, tanto era assim, que lá, na nossa pequena cidade que era só esperar a vinda do padre para a gente ir viver nosso romance e ter nossos filhos. Tínhamos promessas de estudar muito, mas nunca abandonar a agricultura familiar": Sonhávamos do alto do barranco, olhando a lua que piscava para nós, quando a nuvem a cobria e descobria por alguns instantes". Assim, ela ia me contando.


Ví lágrimas nos olhos daquela que se inebriava com a saudade do seu amado perdido. Curioso, pedi para me contar o que houvera. Não consigo me lembrar, textualmente, suas doces palavras, mas recordo só do seu lamento de saudade.


Não sabia porque o Jô começou a namorar uma outra moça, deixando até de falar com ela. Que destino era aquele que, apesar de se amarem e terem tantos planos juntos, tudo parecia uma queda do barranco, com flores em botão que as "lágrimas" da enchente do rio derrubavam?


Pois bem, assim aconteceu, as águas levaram aqueles botões de flores para germinar em outros canteiros distantes. Disse-me que o tempo cicatrizou aquela dor de um amor irrealizável, mas as cicatrizes quando querem abrir, eu passo a andiroba do amor daquele que agora envelhece comigo, no sítio que cultivamos cupuaçu e nos divertimos com os netos que tocam vários instrumentos.


Fiquei sem entender bem do remédio da "andiroba" que a curava quando batia a saudade do amor em botão que não desabrochou. Eis que seu velho, o seu amor curativo chegou, trazendo remédio do filho que os esperava em casa.


Eu ainda vi os dois bem juntinhos, rumando com seu motor de popa voltando para o sitio, naquele final de tarde. Aí, eu lembrei de uma frase mais antiga do que os velhos amores irrealizáveis: "FLORESÇA ONDE ESTIVERES PLANTADO E NÃO TE OCUPES EM TECER AS TEIAS DA SAUDADE"


Nelson Peixoto, Manaus, 23 de Maio de 2026.

 
 
 

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